Eu Não Sou Ninguém Não faz muito tempo que tendo sido convidada para participar num almoço de aniversário de um jornal semanal, regional, do qual eu era colaboradora na época, o director começou por se apresentar, pedindo aos convidados para lhe seguirem o exemplo, pela ordem em que se encontravam sentados à mesa. A ronda foi seguindo, e cada um dos presentes, enunciando o seu nome dizia: ─ Sou fulano, presto tal tipo colaboração ao jornal, tenho tal profissão, nasci em tal lugar, e resido em tal sítio. Todos ouvíamos atentos e saudávamos cada um em particular. A certa altura chegou a vez de uma senhora, com um ar distinto, mas bastante modesto, que se levantou como os demais, e após um curto momento de silêncio, declarou: ─ “Eu não sou ninguém,”...
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Telefonema Inoportuno Andava eu entusiasmadíssima a preparar uma nova exposição de pintura e nesse meu entusiasmo deixava de parte tudo o que me pudesse desviar das minhas telas, dedicando-me a tempo inteiro à minha inspiração e vontade de terminar as obras que tinha entre mãos. A família vendo todo o meu empenhamento procurava ajudar-me nos trabalhos inadiáveis e até deixarem-me só, em casa, durante grande parte do dia, para sem interrupções eu me poder dedicar de alma e coração à minha arte. Estando pois de pincel na mão, embrenhada na pintura, talvez até já suja de tinta, eis que toca o telefone. Toca, toca insistentemente, e entre continuar a ouvir aquele retinir incomodativo, que me destabilizava e roubava a calma necessária para a tarefa que desempenhava, e interromper o meu trabalho, optei pela segunda hipótese, a...
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As Laranjas do Vizinho Quando eu era novo costumava de vez em quando saltar os muros e ir apanhar umas laranjitas nos quintais dos vizinhos. Um dia fui com uma malta, entrámos lá num quintal, que tinha laranjas, e andávamos muito bem a apanhar nelas, quando entretanto apareceu o dono e começou a ralhar: ─ Há meus malandros! Meus marotos! A malta desatou a fugir. Eu corria quanto podia, mas o homem vinha no meu encalço, quase a apanhar-me. A dada altura ele começou a gritar com quanta força tinha: ─ Pára! Pára! Pára! Pára! Pára. Eu, que só pensava em fugir, ao ouvir, a sua voz forte e toda aquela insistência, não sei porquê, mas o certo é que parei mesmo. Estaquei de repente, e gelei de medo e espanto, pois com a pressa da corrida, nem vira para onde me dirigia, e só nesse preciso instante me apercebi, de que estava mesmo ali à minha frente, rente ao chão, envolto em silvas, um poço daqueles enormes, de rega, ...