Num dia tórrido
(ou tórrida estupidez)As árvores, falando felizes umas com as outras, diziam:
- Vejam como hoje nos olham de modo diferente,
até parecem gostar de nós.
Aproximam-se, param, inspiram,
expiram exclamações de prazer.
Olham-nos com carinho, admiração, alívio.
Lemos-lhes nos olhos
regozijo, satisfação, bem-estar.
Suspiram e param a contemplar-nos,
complacência de quem está arrependido,
ou, em consciência, prestes a arrepender-se.
O deleite ressalta em seus gestos.
Parecem rogar-nos que estendamos nossos
braços, ao longo do seu caminho.
Parecem suplicar que os acolhamos
sob nossa proteção.
Parecem implorar que prolonguemos
nossa sombra indefinidamente.
Os espaços aonde ela não chega,
apressam-se a percorrê-los.
Em zona protegida, ao entrarem,
seus passos abrandam, prelibando-a.
Seus suspiros de alívio que escutamos
("Que bom! Que bom!")
Em doce partilha os comungamos.
Estranhos seres estes
(Que dúbia conduta ostentam!)
que ainda há pouco tempo gritavam:
o sol, a vista, a luz lhes tirávamos,
as ruas, os passeios, as varandas sujávamos,
o pólen e os pássaros albergávamos.
Que fossemos, pois, derrubadas.
Para nos instalarem, espécie ou lugar
De má escolha, foi fraca a ciência.
Para sobrevivermos, dignas raízes levantámos,
pavimentos deslocámos,
Cujo alerta seu poder acolha
Para sua própria fruição. Ou não.
Estranhos seres, estes humanos,
que não sabem o que querem,
ou não sabem do que precisam.
O ar, como não se vê, nem pensam nele.
Só o sentem quando ele se manifesta
em ventos furiosos, ou lhes falta,
ou lhes é servido pleno de poluição
que os sufoca e asfixia com severidade,
roubando-lhes a saúde e até a vida.
Agora, fingem gostar de nós.
Procuram-nos com insistência.
Mas depressa se esquecem
dos presentes que lhes ofertamos.
Estranhos seres que nos ateiam fogo,
por descuido e por maldade,
ou nos derrubam massivamente,
e depois choram...
Choram o desastre das derrocadas,
os degelos, as inundações.
Desesperam com os dias de calor,
cada vez mais intenso,
com as secas
cada vez mais prolongadas,
com a tórrida aridez,
cada vez mais instalada.
Vítimas de sua própria malvadez,
indignam-se com os vastos montes
pejados de esqueletos ardidos.
Sufocam com o fumo e a fuligem
que paira no ar nos dias em que ardemos.
Estranhos seres, estes humanos,
que não sabem o que querem
ou não creem no que sabem.
Aida Viegas
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